Feed on
Artigos
Comentários

ÀBÍKÚ

Sucessivos abortos numa mesma mulher, partos seguidos da morte da criança recém nascida, morte de crianças ou jovens, repentinas e associadas a estágios significativos de vida, tais como mudanças nas fases de crescimento, aniversários, casamento ou nascimento do primeiro filho, são identificados como acontecimentos ligados aos Àbíkú.

O que é “Àbíkú”?

A tradução literal é “nascido para morrer” (a bi ku) ou “o parimos e ele morreu” (a bi o ku), designando crianças ou jovens que morrem antes de seus pais. Há, assim, dois tipos de Àbíkú: o primeiro, Àbíkú - omode, designando crianças e o segundo, Àbíkú - Agba, referindo-se a jovens ou adultos que morrem, via de regra, em momentos significativos de suas vidas e sempre antes dos pais, apresentando nisso uma alteração da ordem natural que socialmente é aceita e entendida como: aqueles que chegaram ao Aiyé (mundo físico) primeiro, voltam primeiro ao Orún (mundo espiritual). Nessa questão, além da lógica natural, está presente a garantia da continuidade no Aiyé e a certeza da lembrança e do culto ao ancestral que deixa descendentes que recontarão sua história ao longo dos tempos, garantindo sua “sobrevivência” na comunidade.

No Orún vive um grupo de crianças chamadas Emere ou Elegbe e este grupo constitui o Egbe Orún Àbíkú, ou seja, sociedade das crianças que nascem para morrer. Contam os mitos que a primeira vez que os Àbíkú vieram para a terra foi em Awaiye e constituíam um grupo de duzentos e oitenta, trazidos por Alawaiye, chefe deles no Orún. Na encruzilhada que une o Orún ao Aiyé, ikorita meta, todos pararam e vários pactos foram feitos, definindo o momento particular do retorno de cada um ao Orún. Alguns voltariam quando vissem pela primeira vez o rosto da mãe, outros quando casassem, um terceiro grupo voltaria quando completassem determinado tempo de vida, um quarto grupo voltaria quando tivessem o primeiro filho, e assim por diante. E o carinho dos pais, o amor que recebessem ou os presentes não seriam capazes de retê-los no Aiyé. Alguns assumiram o compromisso de que nem nasceriam. Esse pacto deveria ser cumprido e os seus companheiros no Orún manterem-se presentes na sua vida, interagindo no seu dia a dia, para que não o esquecessem e retornassem ao Orún tão logo o momento pactuado ocorresse.

Como chega a ocorrer o nascimento ou a manifestação de um Àbíkú em uma gravidez? O Ioruba acredita que a acção do Àbíkú ocorre por determinação do destino da mãe, ou por força de magia/feitiçaria, ou por condições acidentais. O Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na sua monografia “Ayedungbe: a terra é doce para nela se viver - rito na luta contra a morte de Àbíkú”, definem essas condições acidentais como “aquisição inadvertida de um Àbíkú por uma mulher grávida que não tenha tomado os necessários cuidados para evitar isso”. Existe a crença de que uma mulher grávida, ao passar por determinados locais em que os Àbíkú se estabelecem, se não estiver devidamente protegida, pode ver-se invadida por este “espírito” e tornar-se sujeita à gravidez de um Àbíkú. Por isso cuidados especiais são tomados pelas mulheres tão logo tenham consciência do estado de gravidez. Não é raro que mulheres grávidas carreguem junto a barriga um “ota”, devidamente preparado, para evitar essa “invasão” por parte de um Elegbe. Sacrifícios, oferendas e rezas são feitas também com o objectivo de evitar que uma mulher tenha filhos Àbíkú ou que, grávida, venha a ser “invadida” por um deles.

Deixando de lado condições acidentais ou efeito de magia/feitiçaria, temos observado que a ocorrência de Àbíkú numa mãe invariavelmente repete uma história familiar que podemos reconhecer procurando os seus antecedentes. Ou seja, podemos procurar nos antecedentes familiares da mãe para constatar, invariavelmente, que este Àbíkú vem se fazendo presente na família, geração após geração, em linha directa ou não.

Outra questão interessante é que podemos afirmar com grande precisão que alguns Odú de nascimento predispõem a ocorrência de Elegbe. Assim, temos que mulheres regidas pelo Odú Ogundabede (Ogunda + Ogbe) são naturalmente predispostas a gerarem filhos Àbíkú e, identificadas, quando ainda não são mães, certas oferendas são realizadas e alimentos são-lhes dados para prevenir a ocorrência. Ebó igualmente é feito nas situações em que já geraram filhos ou planejam gerar - um preá é colocado acima da porta de entrada da casa e um peixe acima da porta de trás, para proteger os moradores da visita dos Elegbe que ali vêm em busca de seus companheiros. Neste caso, deixam de ter acesso ao interior da casa e levarão, no lugar da pessoa que vieram buscar, o preá e o peixe. Um Orin Egbe , cantiga dedicada a Aragbo ou Ere Igbo, Orixá protector das crianças Àbíkú, fala-nos desse Ebó.

Entendemos, assim, que Egbe é cultuado e louvado com a finalidade de defender as crianças da morte prematura e oferendas lhe são feitas para que “desistam” de levar os Àbíkú de volta para o Orún, sendo um de seus objectivos a questão da manutenção dessas crianças no Aiyé. Segundo o Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na obra já citada, “… Estabelece-se assim um jogo de forças entre Aragbo e a comunidade de Àbíkú que deseja levar seus membros do Aiyé, mundo físico, para o Orún, mundo dos mortos, mundo espiritual.

Cultos e oferendas são realizados tanto para que a comunidade de Àbíkú abra mão de levá-los de volta, como para que Ere igbo os proteja de serem reconduzidos à terra espiritual.” Todas as pessoas nascidas dentro do Odú Ogundabede, homens e mulheres, devem cultuar Egbe. Entende-se também que quem o cultua evoca as suas bênçãos em benefício das crianças do núcleo familiar. Aliás, o culto de Egbe e suas festas trazem muita semelhança com as festas e o culto que se fazem para “Cosme e Damião” e que são, muitas vezes, confundidas com o culto do Òrìsà Ibeji. Este Òrìsà e Egbe (ou Aragbo) são de distintas naturezas, justificam abordagens e tratamentos diferenciados, têm formas particulares de serem louvados, são cultuados por diferentes razões e necessidades, e os seus cultos não podem ser confundidos sob pena de incorrermos em erro de fundamento.

Por último, dois aspectos são importantes de serem nomeados: o primeiro, diz respeito ao que podemos chamar de comportamento peculiar da criança Àbíkú. São, certamente, crianças que se distinguem por este aspecto. Segundo, a resistência, na nossa cultura, que os pais têm em aceitar o facto de terem um filho Àbíkú e a dificuldade consequente em lidar com esta criança e todas as necessidades decorrentes da luta pela sua permanência no Aiyé. Cabe aí um importante papel para o sacerdote que pode ajudá-los a compreender a questão, dar-lhes orientação e acompanhamento durante todo o processo.

Texto de José Ribas

As Ervas dos Orixás

As ervas detém grande quantidade de Axé (Energia mágica-universal, sagrada) e quando bem combinadas entre si, detém forte poder de limpeza da aura e produzem energia positiva.

Um banho, com o Axé das ervas dos Orixás do Candomblé, age sobre a aura eliminando energias negativas, produzindo energias positivas.

Um banho de ervas reúne as ervas adequadas a cada caso, agindo directamente sobre esses distúrbios, eliminando os sintomas provocados pelo acumulo de energias negativas.

Ervas indicadas para preparar um banho

Nesta relação, encontra as ervas mais utilizadas, e que são mais facilmente encontradas para uso.

Estão listadas com a nomenclatura popular, a científica e Iorubana, indicando-se também para que orixás se destinam, ou são normalmente usadas.

- Babosa - aloe vera - Exú - ipòlerin, ipè erin
- Melão são caetano- momordica charantia - Oxumaré, Nanã - èjìnrìn, wéwé
- Saião/Folha da costa - kalanchoe brasiliensis - Oxalá - òdundún, elétí
- Erva de santa luzia - pistia stratoides (stratiotes) - Oxum - ójuóró
- Nenúfar/lótus - nymphaea (lótus) alba - Oxum - òsíbàtà
- Pimentinha d’Água /Jambu - spilanthes acmella (filicaulis) - Oxum - éurépepe, awere pepe, ewerepèpè
- São gonçalinho - cassiaria sylvestris - Ogum, Oxóssi - alékèsì
- Sete sangrias - cuphea balsamona - Obaluaiyê - àmù
- Tapete de oxalá (boldo) - peltodon tormentosa - Oxalá - ewé bàbá
- Bete cheiroso - piper eucalyptifolium - Oxalá - ewé boyi
- Goiabeira - psidium goiava - Oxóssi, Ogum - àtòrì, gúábà
- Mamona - ricinus communis - Exú, Ossaim - lárà funfun, ewé lará
- Mamona vermelha - ricinus sanguneus - Exú, Ossaim - làrá pupa
- Peregun - dracaena fragans - Ogum, Oyá - pèrègún
- Alumon - vernonia bahiensis (amugdalina) - Ogum - ewúro jíje
- Carqueja - borreria captata - Oxóssi - kànérì
- Umbauba/embaúba - cecropia palmata - Nanã, Xangô, Oyá – agbaó / agbamoda
- Perpetua - alternanthera phylloxeroides - o seu Exú - èkèlegbárá
- Gameleira branca - ficus maxima – Tempo (Iroko), Xangô
- Canela de velho - molonia albicans - Omulú
- Macassá - tanacetum vulgaris - Oxum, Oxalá
- Melissa - melissa oficinalis - Oxum
- Kitoko - pluchea quitoco – Xangô - obalu
- Para raio/cinamomo - melia azeoarach - Oyá - ekéòyìnbó
- Beti branco/agua de alevante - renealmia occidentalis sweet – Oxalá - kaiá
- Alfavaca (erva doce) - ocimum guineensis - Oxalá - efínrín èrùyánntefé
- Folha da fortuna - bryophylum – Exú - eru oridundun, àbá modá
- Espada de yansã - rhoeo - Oyá - ewé mesán
- Aroeira branca - litrhea - Ogum
- Poejo -mentha sp - olátoríje
- Erva prata
- Picão - elésin máso
- Patchouli – Exú - ewé legbá
- Anis - clausena anisata - Oyá - agbásá, àtàpàrí òbúko
- Aroeira - schinus sp - Ogum
- Alecrim - rosmarinus officinais - Oxóssi - sawéwé
- Araça - psidium sp - Oxóssi - gúrófá
- Guiné - petiveria alliacea – Oxóssi - ojusaju
- Louro - laurus nobilis – Ossain - ewe asá
- Macela
- Língua de vaca - rumex sp - Obá, Oyá - enuum malu
- Alevante - menta sp – Ogum, Exú - olátoríje
- Amoreira - rubus sp - Egun, Oyá - morus celsa
- Dormideira - mimosa púdica – Oxumaré - owérénjèjé, pamámó àlùro- caxixi
- Pata de vaca - bauhinia forficata
- Colónia /Lírio de brejo - hedychium coronarium – Oxalá - toto
- Jibóia - jokónije
- Cânfora
- Alfazema – Oxum - ewe danda
- Algas marinhas - fucus – Iemanjá - ewe kaiá

Pombagira

Pomba Gira é uma das entidades mais polémicas que conheci nos meus anos de estudo e trabalho no Candomblé. Muito se diz sobre estas entidades: que foram mulheres da vida e que ao morrer se transformaram, que são espíritos demoníacos, que pervertem a sexualidade das pessoas, afastam casais, aproximam, enfim, todo o tipo de adjectivos lhes têm sido dados.

Pombagira, Bombogira, Exú Mulher ou ainda Bomobonjira, são todas formas de a denominar. Em especial, é mais utilizada a denominação Pombagira que nos chega pela influência Banta (Angola). A Entidade Banta Aluvaiá-Pombagira que foi trazida de África durante o fluxo de escravos para o Brasil e então submetida à entidade Iorubana Exú, durante todo o processo de miscigenação que se desenvolveu no Brasil, sendo colocada e entendida como a sua vertente feminina.

O facto de esta ser uma entidade que é entendida e cultuada de diferentes formas por diversas nações do Candomblé, pela Umbanda e pela Kimbanda, prova desde logo que se tratou de um processo de adaptação não consensual que ainda hoje perdura.

No Candomblé mais tradicional, como o Ketu, estas entidades não são cultuadas.

No Candomblé tradicional, cultua-se exclusivamente o Orixá Exú que é uma entidade masculina, cuja simbologia é unicamente fálica, e portanto nada tem de feminino.

No entanto, as Pombagiras existem de facto, não são Orixás, mas assim mesmo, são cultuadas também no Candomblé, embora nas nações menos tradicionais.

Como membro do Candomblé Ketu, o conceito que formei sobre quem são as Pombagiras é simples: são seres do mundo astral, guerreiras tanto quanto Exú, que estão bem próximas da nossa esfera humana, algumas já reencarnaram e outras não. Convivi de perto com Maria Padilha. Tive oportunidade durante os anos de vê-la, assim como às outras que pertenciam a várias médiuns do terreiro, realizarem inúmeros trabalhos: ajudar a vencer obstáculos, a ser feliz no amor, vencer problemas de saúde de desarmonia conjugal, e muitas outros problemas que as pessoas tinham e sobre os quais lhe pediam auxílio.

Pombagira subdivide-se numa enorme legião onde cada qual tem o seu nome próprio, conforme a sua área de actividade. Temos a linha das que pertencem às encruzilhadas como Pomba Gira Rainha das 7 Encruzilhadas; a linha do cemitério liderada pela Pombagira da Calunga; a linha das ciganas, lideradas pela Pombagira Cigana; e a linha ligada aos locais ermos, liderada pela Pombagira, Maria Mulambo. Com relação às suas manifestações nos médiuns, normalmente como mulheres, as suas legiões podem adoptar nomes como Pombagira Rosa, mas pertencendo a esta ou àquela linha, liderada pela chefe correspondente.

Uma coisa é muito certa, todo e qualquer problema que colocamos nas mãos de qualquer uma delas tem solução. A sua força é guerreira, a sua vibração magnética é carregada de sensualidade e alegria, tanto que a sua chegada aos médiuns é sempre alegre, solta e sensual.

Exú tem ligação com a força sexual criativa, e a Pombagira por sua vez com a circulação dessa energia criativa existente na vida e no Universo. Lamentavelmente a sua reputação tornou-se péssima devido a erros de incorporação dos próprios médiuns, que por deturpações pessoais as transformaram em seres com fama de depravadas, libidinosas e cruéis.

O importante ao invocá-las é lembrar sempre que, são entidades complexas de personalidade forte, e que nunca perdoam uma falta de palavra dada. O importante também é não invocá-las para trazer prejuízo a outrem, porque elas o farão com certeza, mas a dívida kármica adquirida ficará por conta de quem pediu.

Quanto ao seu aspecto sensual, faz parte de sua polaridade, não querendo significar com isso depravação ou perversão. Até hoje não conheci nenhuma mulher que tenha deixado de ser honesta por culpa de qualquer uma delas.

O importante é que elas existem com certeza, e isso presenciei, assisti e convivi.

A Dança dos Orixás

Este video é uma apresentação resumida da dança de quatro dos mais conhecidos Orixás (Ogum, Oxum, Iansã e Xangô, nessa ordem de entrada). Esta apresentação não é feita no ambiente de um terreiro, mas é suficientemente elucidativa da forma como estes Orixás dançam quando descem nos seus filhos. As músicas e as indumentárias estão também a rigor.

Axé!

A Comida dos Orixás

 ”Certo que os Orixás comem o que os homens comem, porém, recebem a seus pés, nos terreiros, comidas onde os modos de preparar, ao lado dos saberes: palavras de encantamentos (fó), rezas (àdúrà), evocações (oriki) e cantigas (orin) ligadas a estórias sagradas (itan), são elementos essenciais e vitais para a transmissão do axé

Vilson Caetano de Souza Junior

Dividir o alimento com os deuses é ter a insigne hora de comer com eles, garantindo, dessa forma, a presença dos Orixás em nossas vidas e da refeição em nossa mesa.

Ao preparar as comidas de santo, deve-se observar os tabus de cada um deles. Por exemplo, o azeite de dendê nunca deve ser oferecido a Oxalá, o mel é proibido a Oxóssi, o carneiro não pode sequer entrar em uma casa consagrada a Iansã etc. Os filhos de santo devem observar todas as quizilas dos seus Orixás e, sendo parte do Orixá, também não podem consumi-las.

A ijoyé encarregada de preparar as comidas dos Orixás é a Ìyá Basé, um cargo outorgado apenas a mulheres de grande sabedoria e respeito junto à comunidade. Ela é a mãe que conhece todos os segredos da cozinha e que sabe que o principal ingrediente para uma boa comida de santo, capaz de alcançar as mais altas dádivas, é o amor.

O primeiro Orixá cultuado também é o primeiro a comer, Exu ele come tudo que a nossa boca come, as oferendas dadas ele mais comumente são os padês a base de farinha de mandioca branca, combinada com azeite de dendê ou  mel de abelha, água, bebida alcoólica e acaçá vermelho  feito com farinha de milho amarelo e enrolado em folha de bananeira. em algumas ocasiões também são utilizados pimenta, cebola, bife e moedas nas oferendas a este Orixá.

Nas oferendas a Ogum são dados inhame assado com azeite de dendê e feijoada.

Oxóssi come axoxó feito com milho vermelho cozido decorado com fatias de coco. Ele também aprecia frutas e feijão fradinho torrado. As comidas devem ser colocadas sob o telhado ou aos pés de uma arvore.

A oferenda dada a  Obaluaiê é a pipoca. Utilizando areia da praia para estoura-las e enfeitando com fatias de coco.

Oxumare prefere que sejam dados em oferenda a ele, bata doce amassada e modelada em forma de cobra  e também farofa de farinha de milho com ovos, camarões e dendê.

Ossaim prefere acaçá, feijão, milho vermelho, farofa e fumo de corda.

O acarajé de forma arredondada com dendê é a oferenda consagrada a  Iansã, mas também é do agrado de Obá.

Obá também tem preferência por um bolinho de nome abará que consiste em uma massa de feijão fradinho temperado  com dendê enrolado em folha de bananeira e cozido em banho-maria.

O omolocum, feijão fradinho cozido com cebola, camarões e azeite de oliva e decorado com ovos cozidos e descascados é de Oxum.

Iemanjá prefere peixe de água salgada, regados ao azeite e assados, milho branco cozido e temperado com camarões, cebola e azeite doce, manjar com leite de coco e acaçá.

A Nanã é oferecido efó, mungunzá, sarapatel, feijão com coco e pirão com batata roxa.

O amalá pertence a Xangô. O amalá (pirão de inhame) deve untar o fundo da gamela e sobre ele é colocado o caruru decorado com pedaços de carne, camarões, acarajé e quiabo, doze unidades de cada e enfeitado com um orobô. É válido lembrar que a oferenda deve ser servida quente.

Oxalufã só aceita comidas brancas e tem preferência por milho branco cozido e sem tempero.

O inhame pilado é oferenda de  Oxaguiã.

As comidas oferecidas a Orixás Funfun, devem ser sempre colocadas em louças brancas.

em: Candomblé A Panela do Segredo - Comida de Santo

Oráculo

A Comunicação com os Orixás pode ser feita pelo Oráculo de Ifá ou pelo Jogo de Búzios. Ifá é o nome que Olodumarê, o Deus Criador, deu para Orunmilá enquanto divindade manifestada no mundo. Ifá é o Oráculo, o sistema divinatório composto de diversos métodos. Os mais conhecidos são o Opelé, o Ikin, o Merindilogun ou jogo de búzios e o Obi (este só é utilizado na realização das obrigações).

Orunmilá é a divindade e Ifá é o sistema onde esta divindade se manifesta. Não há Ifá sem Orunmilá e nem Orunmilá sem Ifá. Estes dois conceitos são tão intimamente relacionados que muitas vezes nos referimos a Orunmilá como Ifá. Orunmilá é a divindade da sabedoria e do conhecimento, responsável pela transmissão das orientações dos deuses e dos nossos ancestrais, de maneira a permitir a cada um de nós a possibilidade de uma escolha acertada para uma vida feliz.

“Orunmilá, a Testemunha do Destino e da Criação. O segundo após Olodumarê. Aquele que estava presente, ao lado de Deus, quando a Vida, o Mundo, o Homem foi criado. Orunmilá tudo vê, tudo sabe, tudo conhece. Não há nada que tenha sido criado ou que virá a ser criado que Orunmilá não saiba antes. Orunmilá conhece a vida e conhece a morte, ele conhece a existência: o antes e o depois. Por isso ele pode ajudar.”

Orunmilá/Ifá deve ser compreendido como um sistema: é o homem e sua ferramenta. Por vezes o homem é a sua própria ferramenta. Orunmilá é tanto humano quanto espírito.  Enviado por Olodumarê para ir a diferentes lugares, sempre que há necessidade, para ajudar os homens a enfrentarem os seus problemas, contornando obstáculos e desenvolvendo o seu bom carácter. Podemos também imaginar Orunmilá como o espírito de Olodumarê manifestado no homem.

Alguns dizem que a palavra Orunmilá deriva de Oro-Omo-Ela ou Oro= palavra/espírito, Omo= filho, Ela= Deus. Após a Criação, Orunmilá veio à Terra como a divindade encarregada por Olodumarê para ensinar os homens. Esta mensagem é Ifá, a luz, o conhecimento e a orientação da sabedoria ancestral de toda a humanidade.

“O jogo de búzios tem por finalidade identificar o nosso  Orixá  (Ori=Cabeça (física e astral) + Isá=guardião); ou seja , problemas de plano astral, espiritual, material e suas soluções”. O jogo de búzios é uma leitura divinatória e esotérica por excelência, utilizado como consulta,  quer seja; para identificar o nosso Orixá que é a mesma figura do anjo de guarda; a situação material, astral e espiritual, principalmente com relação a problemas e dificuldades. A leitura esotérica divinatória está directamente ligada à Òrúnmìlà,  cujos Babalorixás, são seus porta-vozes, outras lendas africanas, mostram a ligação do jogo de búzios com Exú, Oxum e Oxalá. Os búzios são jogados em número de dezasseis, que correspondem aos dezasseis Odús principais.

Sincretismo

Durante o período da Escravatura no Brasil, nas senzalas, para poderem cultuar os seus Orixás, Inkices e Voduns, os negros foram obrigados a usar como camuflagem altares com as imagens de santos católicos, cujas características melhor correspondiam às suas Divindades Africanas, e por baixo desses altares escondiam os assentamentos dos Orixás, dando assim origem ao chamado Sincretismo. Mesmo usando imagens e crucifixos, os seus cultos e rituais inspiravam perseguições por parte das autoridades e pela Igreja, que viam o Candomblé como paganismo e bruxaria.

Sabe-se hoje, segundo alguns pesquisadores, que este sincretismo já teria começado em África, induzido pelos próprios missionários para facilitar a conversão dos indígenas.

Depois da libertação dos escravos, começaram então a surgir as primeiras casas de Candomblé, e é um facto que o Candomblé durante os séculos tenha incorporado muitos elementos do Cristianismo. Crucifixos e imagens eram exibidos nos templos, os Orixás eram frequentemente identificados com Santos Católicos, e algumas casas de Candomblé também incorporam entidades Caboclos, que eram consideradas pagans, como os Orixás.

No entanto, nos últimos anos, tem aumentado um movimento “fundamentalista” em algumas casas de Candomblé, que rejeitam o sincretismo com os elementos Cristãos e procuram recriar o candomblé “mais puro”, baseado exclusivamente nos elementos Africanos.

Em todo o caso, porque esta tendência ainda subsiste, e também para que se perceba a lógica do Sincretismo, abaixo encontra o quadro que o ilustra, em relação aos principais Orixás cultuados no Candomblé.

Conhecendo as característica e atributos de cada Orixá, e conhecendo também os santos católicos, facilmente perceberá as razões que levaram ao Sincretismo ou correspondência de cada Orixá com um determinado santo católico.

Datas comemorativas dos Orixás e Sincretismo

Dias

Orixá

Sincretismo

15/01

Oxalá

Jesus Cristo

20/01

Oxóssi

São Sebastião

02/02

Iemanjá

Nossa Senhora dos Navegantes

19/04

Logun Edé

Santo Expedito

23/04

Ogum

São Jorge

30/05

Obá

Santa Joana d’Arc

13/06

Exú

Santo António

24/06

Xangô

São João Baptista

26/07

Nanã

Sant’Ana

24/08

Oxumaré

São Bartolomeu

27/09

Ibeji

Santos Cosme e Damião

05/10

Ossaim

São Roque

02/11

Omulú

São Lázaro

04/12

Iansã

Santa Bárbara

08/12

Oxum

Nossa Senhora da Conceição

13/12

Ewá

Santa Luzia

Hoje o que vejo são os iniciados jogados à própria sorte e auto-desenvolvimento, isso para mim é prova do quanto somos falhos e relapsos na formação das novas gerações, dos novos Zeladores e Zeladoras. É dispendioso e demorado o caminho do aprendizado, não questiono se bom ou mau o aprendizado, isso depende do grau de conhecimento da pessoa que se propõe a ensinar e do grau de comprometimento que esta pessoa tenha com o ensinar. E principalmente do quanto o iniciado deseja aprender. Questiono, sobre tudo, a falta de interesse das pessoas que tem como função ensinar e estimular o aprendizado, mas que se escondem em frases como: cada coisa a seu tempo. Ou: isso você ainda não pode saber, é segredo. Não, isso é um exemplo de “mito e tabu criado para complicar a vida do iniciado”.

Essas respostas denotam medo, e falta de capacidade. É uma forma de afugentar o novato para não ter que explicar coisas que ele mesmo, o Zelador, desconhece. É não ter humildade de reconhecer suas limitações e recorrer a outras pessoas mais experientes para assim aprender e ensinar-lhe.

Relembro que meu texto não fala em “fundamento” religioso, mas de comportamento e aprendizado religioso.

Tabu clássico. Todos nós sabemos que é comum o fato de existir a consciência durante o período inicial do transe, é normal o fato de ouvir e de sentir, isso faz parte do aprendizado e só com o tempo, as devidas liturgias e a prática se chega à inconsciência, que mesmo assim poderá não será total. Por que então não falar abertamente sobre o assunto com os filhos. É incomum ouvir ou ler que a consciência é certamente presente em grande parte dos iniciados, há grande tabu sobre o assunto, fecham-se os olhos literalmente, e literalmente se bate a cara na parede. E depois se segue o comentário. Isso é “equê” ou “pouca força do Orixá”.

Não! O que faltou foi coragem de falar com o iniciado. “Meu filho, no princípio isso é normal, cada pessoa reage de forma diferente a presença do Orixá, mas não tenha medo me de a mão que eu te ajudo. Eu te guio”.

Faltou falar ao iniciado que o Orixá é uma parte da sua personalidade que devido a condicionamentos e rituais específicos será evidenciado, será “chamado” a se apresentar com lindas danças, roupas, gestos e brados. Para que seus filhos possam então lhe honrar.

Mas para isso e antes disso, no silencio das casas de Orixás os iniciados devem ser educados, treinados, ensinados, devem receber “pé de dança” devem aprender a língua sagrada, os ofícios e ritos, devem ser inseridos no mundo do candomblé, devem ser encorajados a leitura e aos estudos de forma geral. E como citado anteriormente esse processo é dispendioso e demorado, e hoje todos tem pressa, até casa de Orixá tem pressa, para nossa tristeza.

Neste trecho você deve estar pensando que eu acho que quem sabe mais, quem tem mais estudo, quem tem nível superior, ou melhor, quem tenha pós-graduação “incorpora” melhor? Não é isso, mas acho que as oportunidades de bons empregos aparecem para quem está melhor preparado. Assim como os iniciados que tiveram melhor educação religiosa, serão melhores Zeladores. Meu grande sonho é ver um filho de Orixá num grande posto de comando, sem vergonha de declarar a qual religião pertence e cumprir sua função religiosa e social com dignidade.

Não posso negar que o saber influencia no “incorporar”, mas que saber é esse então?

È o saber ouvir e aconselhar do Preto velho ou Pomba Gira. O saber abraçar e beijar a testa de um filho que lhe pede a benção, quando se está incorporado de Orixá. É saber “virar” em respeito ao Orixá mais velho ou o homenageado, e é saber se portar numa casa visitada.

Virar de Orixá, como já disse, é propiciar ao outro o que melhor você tem para oferecer, é distribuir o Axé e energizar os necessitados, “um abraço dado de bom coração é uma benção”, diz a toada de Umbanda, é também receber o Axé e as energias, é uma parte de você que está sempre em contato com o seu Deus pessoal.

Tanto para o iniciado quanto para devoto a presença do Orixá manifestado, com gestos suaves e feições serenas pode, por exemplo, acelerar a cura de uma enfermidade, pode lhe dar a força necessária para buscar um emprego, e isso acontece simplesmente por que esta imagem transmite ao cérebro uma sensação de bem estar e proteção que faz com que a cura ou sucesso profissional seja uma certeza inquestionável, isso é fé, que aliada a um bom tratamento médico ou a procura pelo emprego adequado a sua aptidão, darão cura a diversos males. Quem empresta o corpo ao trabalho espiritual também será beneficiado. Essa é uma das funções da religião. Mas por que não se explica isso ao iniciado? Por que tudo gira nas mãos do Zelador? O mais simples quase sempre é o melhor caminho.

Quando me questiono sobre a religião, as vezes me vejo sem esperanças e engrosso o coro dos que dizem que daqui a 50 anos o candomblé estará tão descaracterizado que será uma outra religião. Então percebo que não podemos desanimar e escrevo, discuto, levo a informação adiante.

Texto de Tomegê d’Ogum

Durante muito tempo relutei em escrever por que sempre achei que não tinha conhecimento ou informação suficiente para repassar aos iniciados de nossa religião. Mas também aprendi que ser um Ebami é mais que completar o ciclo de iniciação com uma cerimónia de sete anos, é primordialmente cuidar para que os novatos sejam bem tratados e educados dentro dos princípios básicos da boa convivência e hierarquia religiosa de cada Casa de Axé.

Mas, devido aos acontecimentos e fatos presenciados ao longo do tempo, minha percepção de certo e errado mudou e agora, acho que por menor que seja minha contribuição, ela pode de alguma forma ajudar aos que necessitam de orientação. Ou, ainda, auxiliá-los a descobrir seu caminho. Alguns podem achar presunção, outros podem achar que de fato não tenho nada de novo para dizer, e é fato, não vou aqui reinventar a roda, não vou copiar e colar texto de ninguém, mas vou fazer o que me compete como irmão mais velho.

Vou começar por uma questão que para muitos é vista como uma brincadeira no interior das Casas de Santo, mas que tem causado tantos transtornos e desvios de conduta dos iniciados, além de contribuir também para um aprendizado inadequado, com consequente má formação dos futuros Zeladores de nossa Religião. Perpetuando assim a ignorância. Falo dos ditos “tabus” e “mistérios”. Que na maioria das vezes foram e são “criados” pela comunidade, sem fundamento religioso algum.

Não entendo o porquê da criação de tantos “mitos, preceitos e preconceitos” a cerca de nossa Religião, e muito menos consigo entender que essas criações e alucinações de Zeladores pouco confiáveis sejam impostas aos iniciados. Não tem o menor fundamento religioso ou qualquer fundamento de “Quarto de Orixá” a maioria desses ditos “mitos e preceitos”, só servem para atemorizar e criar uma idéia, apreciada por muitos, do poder absoluto do Zelador.

É sobre a falta de conhecimento religioso, que vem há muito tempo, assolando nossas comunidades, que me proponho a falar, tanto de Zeladores quanto de iniciados; e da condição de submissão e marginalidade a que o iniciado é muitas vezes relegado.

Também da pompa, do ego e do interesse financeiro, que estão sendo postos acima de tudo em muitas casas, e que tem causado situações das mais complicadas. É sobre, e principalmente sobre isso que desejo deixar meu protesto, minha indignação.

Há pouco tempo falei à minha esposa que não quero mais participar do “Candomblé de periferia” ou do “Gueto” em contra ponto ao Ketu. Falo do Candomblé sem essência, sem fundamento, sem cultura, sem matriz, por tanto periférico. Quando me refiro ao Gueto, estou falando de uma comunidade fechada em si ou em torno do Zelador, sendo este a figura central detentora do saber e poder, que distribui ordens… Esse modelo é característico dos guetos onde se criam suas próprias regras e leis, onde o que vale é a ditadura.

Um iniciado não pode ser tratado, e nem se deixar tratar, como subalterno, como pessoa de 2ª categoria dentro ou fora de qualquer Casa, o respeito é devido ao iniciado e principalmente ao Orixá. O tratamento desrespeitoso não pode ser confundido com hierarquia religiosa.

Tenho visto e sabido de lugares onde o preceito da boa educação não é cumprido, onde o que vale é o grito, o xingamento e o tratamento desrespeitoso. Por isso resolvi escrever e ajudar no que estiver ao meu alcance e for possível.

Quando soubermos o que somos e quem somos diante do nosso Orixá e diante de Olodumare, não aceitaremos zeladores presunçosos e arrogantes, mentirosos e farsantes que por medo, covardia ou ignorância tentam intimidar ou invalidar o que cada um carrega consigo em seu Ori.

Neste texto não serão feitas revelações de segredos de roncó, muito menos serão ensinadas ou recomendadas comidas e macumbas variadas para diversos fins, até por que nunca me interessei por este assunto. Meu interesse sempre esteve voltado para o conhecimento da cultura religiosa. Portanto se o que você procura é segredo de feitura, interrompa esta leitura e vá buscar em outro lugar. Aqui você vai ler sobre coisas que no final das contas você já sabia, mas faltava alguém te empurrar goela abaixo essas palavras.

Uma pergunta básica de todo principiante. Para que serve ficar dançando e rodando num xire se não sei a finalidade disso?

Nossa religião é baseada na liberdade, na natureza e nos ancestrais divinizados ou não, sejam Orixás ou não. Nossa religião sempre nos ensinou a respeitar e agradecer aos antepassados por tudo o que fizeram e ainda fazem por nós. A harmonizar as energias da natureza e do corpo, e contemplar o belo. Além de uma noção muito clara de família e respeito aos mais velhos. Diante disso, o dançar, o cantar e o incorporar dos Orixás devem ser encarados como o momento de religação e encontro com toda essa energia acumulada por nossos ancestrais e pela natureza, que pode e deve ser redistribuída a todos os participantes, seja no momento da dança do Orixá e do canto sagrado, ou em cerimónias restritas. Por tanto se você não sabe a função destes elementos, se você não foi instruído para esse momento, como você saberá realizar sua parte neste conjunto?

De duas alternativas uma será seguida, ou você se sentirá um farsante, um maluco, ou vai procurar outros lugares ou Zeladores ou religiões que possam esclarecê-lo a respeito da sua função religiosa, te falar sobre a existência de um Deus e todos esses questionamentos próprios dos humanos.

No meu entendimento a incorporação se dá de forma intima e pessoal, cada um desenvolve sua forma de comunicação, sua maneira própria de sentir e manifestar seu Orixá. A mesma energia que para João é muito eufórica, para Antonio pode ser depressiva, isso depende de João e de Antonio, são pessoas diferentes, são sentimentos diferentes, são por tanto manifestações diferentes da mesma energia, mas em algumas coisas os dois serão iguais, nos medos, nas dificuldades e nas desconfianças que afligem os que estão iniciando. Por tanto se faz necessário o acompanhamento carinhoso e sereno, seguro, firme e cuidadoso por parte de seu Zelador ou do seu orientador, com a explicação sempre clara de cada passo dado, de cada reação do iniciado, seja do seu corpo ou do seu inconsciente. E neste contexto não cabem “mitos e tabus criados” que funcionam como barreira ao iniciado.

Texto de Tomegê d’Ogum

A estrutura litúrgica do culto aos orixás no Candomblé pode ser resumida como o processo de, ritualisticamente, acumular, e em seguida transmitir, Axé para os filhos-de-santo nestes três níveis: o ciclo anual de ‘firmeza’ da casa, o ciclo mensal de realimentação energética dos fetiches e dos abôs, e o ciclo diário das obrigações individuais decorrentes da iniciação.

No centro de todas essas relações que compõem a ‘economia energética’ do candomblé está Ifá, o Orixá da adivinhação. O jogo oracular mais comum é constituído por l6 búzios (pequenas conchas). O Pai ou Mãe-de-santo agita os búzios nas mãos e lança-os dentro de um círculo, formado por colares de diversos Orixás. O búzio pode cair ‘aberto’ ou ‘fechado’, ou seja, com a sua face onde há uma fenda ou com o lado liso. Cada uma dessas ‘caídas’ é uma manifestação de um orixá e tem um significado próprio, já que, conforme a ordenação resultante, se pode determinar qual dos Orixás está a responder.

Todos os aspectos da vida são susceptíveis de codificação por cada um dos orixás que se manifestam no jogo. Os deuses tornam-se assim o princípio de classificação dos acontecimentos: cada um governa um acontecimento-tipo. Além da ordenação dos búzios (abertos e fechados), que determina a entidade que preside a cada resposta, a configuração - ou o modo particular como os búzios se distribuíram geometricamente no espaço - também é fundamental para a leitura, pois corresponde à ‘organização energética’ do inconsciente do indivíduo frente a uma força matriz. Ao conjunto dos dois factores, ordenação e configuração, chama-se Odú ou sina.

O Sistema de Ifá, embora bastante contestado por pesquisadores posteriores, configura-se na relação recolhida e apresentada por Roger Bastide e Pierre Verger, que hoje é utilizada e até citada por vários adivinhos.

ENTIDADE

BÚZIOS

Exú

01 abertos e 15 fechados

Ibeji

02 abertos e 14 fechados

Ogum

03 abertos e 13 fechados

Xangô

04 abertos e 12 fechados

Iemanjá

05 abertos e 11 fechados

Iansã

06 abertos e 10 fechados

Oxóssi

07 abertos e 09 fechados

Oxalá

08 abertos e 08 fechados

Obá

15 abertos e 01 fechados

Oxumaré

14 abertos e 02 fechados

Omulú

13 abertos e 03 fechados

Ossaim

12 abertos e 04 fechados

Logun Edé

11 abertos e 05 fechados

Oxum

10 abertos e 06 fechados

Nanã

09 abertos e 07 fechados

Lance nulo

16 abertos ou fechados

Assim, a ordenação aberto-fechado determina qual o Orixá está a falar, e a configuração espacial dos búzios indica o que ele está a dizer. Através de sucessivas jogadas, chega-se então a uma espécie de inventário do que está a acontecer à pessoa, não apenas em relação aos seus Orixás tutelares, ‘os donos da sua cabeça’, mas também como outras entidades estão a influir positiva ou negativamente na sua vida, quais são as suas tendências recorrentes e as possibilidades diante do destino. Geralmente são propostos trabalhos e obrigações para o reequilíbrio energético.

As respostas são decifradas através de lendas e das histórias dos deuses - que são transmitidas de geração em geração através da tradição oral. Por isso, ‘jogar búzios’ requer não só bastante intuição para interpretar as diferentes configurações formadas pelas forças-matrizes, mas também um conhecimento oral do conjunto da tradição mítica dos Orixás e do seu universo simbólico.

Os sacerdotes de Ifá são, originariamente, chamados Babalawós. Eles eram os historiadores orais da cultura Africana. A sua iniciação era muito mais complexa que as outras, pois não envolvia a identificação com um único arquétipo, e o desenvolvimento das suas características na personalidade do iniciando, mas sim o aprendizado de séculos de conhecimento armazenado pelo culto.

Hoje, os zeladores de santo em geral manejam o oráculo.

Older Posts »